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A mente influi sobre o corpo, o corpo influi sobre a mente

onde estávamos e o que estávamos fazendo quando vimos na televisão a morte de Ayrton
Senna. Muitos recordaremos vivamente, anos depois, algum acontecimento feliz de nossa
vida, por exemplo um determinado aniversário, ou o casamento, ou o nascimento dos filhos
ou netos. A fidelidade da gravação e sua persistência são notoriamente menores quando se
tratam de  memórias menos importantes ou chamativas. Na hora da evocação, se produzirá
um nível emocional maior (com maior descarga central de noradrenalina) ao evocar aquelas
memórias mais “emocionantes” do que outras. De fato, as vias noradrenérgicas,
dopaminérgicas e serotoninérgicas são também cruciais e participam como protagonistas
importantes na evocação da memória, também nas várias regiões corticais vinculadas à
memória.
Além dessas vias, há hormônios liberados no sangue pela hipófise, supra-renal e
outras glândulas que afetam profundamente a formação e a evocação de memórias, e muitas
vezes acrescentam seu efeito aos aspectos cognitivos de cada memória, tornando-as
dependentes deles. A memória passa, assim, a ser “a informação aprendida” mais “o efeito
do hormônio que for liberado durante a experiência correspondente”. A liberação do
hormônio passa a funcionar  como mais um componente da memória, como mais um
estímulo condicionado para colocá-lo em termos pavlovianos. É mais fácil evocar essa
memória quando estivermos novamente sob o efeito desse hormônio (por exemplo, para
experiências muito novidosas a  b-endorf ina; para experiências muito estressantes, a
adrenalina e a adrenocorticotrofina ou ACTH). Denomina-se isto como “dependência de
estado”, e é comum justamente em experiências estressantes. O estado é aquele em que nos
coloca a substância endógena liberada.  Recordaremos mais das memórias de medo quando
formos submetidos a novas situações de medo; recordaremos mais das memórias de
conteúdo sexual quando estivermos em situações em que a nossa sexualidade for
estimulada. Isso se deve ao fator de que em cada caso secretamos diferentes e específicos
tipos de hormônio.

A mente humana.

A mente humana abrange, porém, muito mais do que a memória. Nas funções mentais
participam a percepção, o nível de alerta, a seleção do que queremos perceber, recordar ou 
: A Mente Humana # 3, outubro de 2004                                 
aprender,  a decisão sobre o que queremos fazer ou deixar de fazer, a vontade, a
compreensão, os sentimentos, as emoções, os estados de ânimo e tudo aquilo que é
englobado sob os conceitos de inteligência e consciência. 
Todas estas variáveis são fortemente influenciadas pelas memórias e vice-versa; mas
são entidades separadas da mesma e com mecanismos próprios. Em termos de áreas
cerebrais há alguma especialização, mas também muitas superposições. O hipocampo,
estrutura do lobo temporal, e o córtex subjacente (entorrinal) estão fortemente vinculados
com a formação e a evocação de memórias. Mas também registram os níveis de alerta e as
emoções, que regulam sua função mnemônica. A amígdala modula e regula o desempenho
hipocampal nas memórias aversivas ou muito alertantes; mas, além disso, ambas estruturas,
amígdala e hipocampo, regulam a secreção de hormônios hipofisários, que por sua vez
também regulam a secreção hormonal das glândulas supra-renais, tireóide, e sexuais.Como
resultado do registro de variáveis internas ou externas que aumentam ou diminuem os
níveis de alerta e atenção e causam ou não ansiedade ou estresse, ocorrem mudanças
somáticas (no corpo) que nem sempre se relacionam com a memória: hiperventilação,
taquicardia, aumento da pressão arterial, dos movimentos e secreções do tubo gastro-
intestinal, secreção de bílis, etc. É claro que todos estes fenômenos por sua vez afetam a
curto e a longo prazo a atividade nervosa e, dentro dela, as funções mentais, inclusive as
referentes à memória. Há uma relação mente/corpo que é a base da atividade cotidiana de
ambos, e também da patologia chamada psicossomática; que não só existe, como é uma das
bases da Psiquiatria e da Medicina modernas. O estresse repetido pode alterar alguns dos
parâmetros fisiológicos mencionados (pressão arterial, freqüência cardíaca, secreção
gástrica) de forma permanente. 
Assim, a mente humana abrange muitos aspectos e não é possível estudá-la nem
entendê-la, ainda que num nível elementar, sem levar em consideração todos esses
aspectos. A mente influi sobre o corpo, o corpo influi sobre a mente, e nem um nem outro
tem a ver com a alma ou o espírito.
Sabemos muitas coisas novas e importantes sobre alguns aspectos da mente humana e
sua patologia, principalmente sobre a percepção e a memória. Também sabemos como
tratar essa patologia muito melhor do que dez ou cinqüenta anos atrás. Mas ainda há muito mais por aprender.

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